As feridas e manchas na pele decorrentes da síndrome pós-flebite representam o estágio mais grave da insuficiência venosa crónica (CEAP 4 a 6). A hipertensão venosa persistente provoca o extravasamento de hemácias e proteínas para o tecido subcutâneo, gerando inflamação, escurecimento (mancha ocre) e a eventual rutura da pele, formando a úlcera venosa pós-trombótica. O tratamento eficaz requer uma abordagem combinada de bota de Unna, curativos de alta tecnologia e, fundamentalmente, a correção do refluxo ou obstrução venosa subjacente.
- A cascata inflamatória: Como o sangue parado “queima” a pele por dentro.
- Mancha Ocre e Dermatite de Estase: Os sinais que precedem a ferida.
- Lipodermatosclerose: Por que a pele fica dura como madeira?
- Tratamento de Úlceras: Curativos de prata, alginato e terapia por pressão.
- Prevenção: Como evitar que uma pequena picada de inseto vire uma ferida crónica.
Na Angiotratta, o Dr. Danilo Figueiredo Freitas alerta que a pele é o espelho da saúde vascular. Quando a Síndrome Pós-Flebite atinge o estágio de alterações cutâneas, o tratamento deixa de ser apenas preventivo para se tornar uma corrida contra a infecção e a perda de mobilidade. Como vimos no guia principal da Síndrome Pós-Flebite, a falha valvular é a raiz, mas a pele é quem sofre as consequências finais.
Mancha Ocre: O Primeiro Sinal de Perigo
Muitos pacientes notam que o tornozelo começa a ficar “sujo” ou castanho. Não é um problema de higiene, mas sim a Dermatite Ocre. Devido à pressão alta nas veias, as hemácias (glóbulos vermelhos) “fogem” dos vasos e morrem no tecido. Ao morrerem, libertam ferro (hemossiderina), que tatua a pele permanentemente com uma cor acastanhada.
Este sinal é um marcador biológico de que a hipertensão venosa está descontrolada e que o risco de uma úlcera venosa pós-trombótica é iminente.
Lipodermatosclerose: A “Perna de Garrafa”
Com o passar dos anos sem tratamento adequado, a inflamação crónica transforma a gordura sob a pele em tecido cicatricial fibroso. Este processo chama-se Lipodermatosclerose.
- Fase Aguda: A pele fica vermelha, quente e dolorida, muitas vezes confundida com erisipela.
- Fase Crónica: A perna afunila no tornozelo e endurece, assemelhando-se a uma garrafa de champanhe invertida.
Nesta fase, a pele perde a elasticidade e qualquer trauma, por menor que seja, pode abrir uma ferida que não fecha sozinha.
[Image: Diferentes estágios da pele na síndrome pós-trombótica, da mancha ocre à úlcera aberta]
A Úlcera Venosa Pós-Trombótica: O Grande Desafio
A úlcera é uma ferida aberta, geralmente localizada na face interna do tornozelo (região maleolar). Diferente de um corte comum, ela é mantida aberta pela “inundação” de sangue venoso pobre em oxigénio que fica estagnado na região.
Protocolo de Tratamento na Angiotratta
Para fechar uma úlcera decorrente da síndrome pós-flebite, o Dr. Danilo utiliza o trié de ouro da cicatrização vascular:
- Limpeza e Desbridamento: Remoção de tecidos mortos e biofilmes bacterianos que impedem a cicatrização.
- Curativos Tecnológicos: Uso de coberturas de alginato de cálcio (para absorver excesso de líquido), prata nanocristalina (para combater infecção) ou hidrofibras.
- Terapia Compressiva Inelástica: A Bota de Unna ou sistemas de multicamadas são aplicados para exercer pressão enquanto o paciente caminha, forçando o sangue a subir e reduzindo o “vazamento” na ferida.
Por Que a Ferida Não Cicatriza?
O maior erro é tentar tratar a ferida apenas com pomadas milagrosas. Sem tratar a causa vascular (a pressão venosa), a ferida é como uma inundação numa casa com o cano aberto: não adianta secar o chão sem fechar a torneira. Muitas vezes, é necessário avaliar a necessidade de stents venosos ou ablação para reduzir a carga de pressão sobre a pele.
Cuidados Diários e Prevenção de Recidivas
Se você já apresenta manchas ou pele endurecida, a sua rotina deve ser rigorosa:
- Hidratação Extrema: Use cremes com alta concentração de ureia ou barreira lipídica para evitar que a pele rache.
- Proteção Mecânica: Evite andar descalço ou em locais com risco de batidas no tornozelo.
- Vigilância: Qualquer “pontinho” vermelho ou bolha deve ser avaliado imediatamente por um vascular.
- Uso de Meias: Conforme detalhado no artigo sobre meias e exercícios, a compressão é o que mantém a ferida fechada após a cicatrização.
FAQ: Perguntas sobre Feridas e Manchas Venosas
1. A mancha ocre sai com o tempo?
Infelizmente, a pigmentação por ferro é muito persistente. Tratamentos dermatológicos podem clarear, mas a melhor estratégia é estabilizar a doença vascular com o Dr. Danilo para evitar que a mancha escureça ainda mais.
2. Posso usar qualquer pomada numa úlcera de trombose?
Não. O uso de pomadas caseiras ou inadequadas pode causar alergias (dermatite de contacto) e piorar a ferida. O curativo deve ser prescrito após avaliação da profundidade e exsudato (secreção) da ferida.
3. Úlcera venosa causa amputação?
Diferente da doença arterial (falta de sangue), a úlcera venosa raramente leva à amputação. No entanto, ela causa grande dor, isolamento social e risco de infecções graves (celulite) se não for tratada.
4. Por que a minha ferida dói mais à noite?
Isso geralmente ocorre devido ao inchaço acumulado durante o dia. A pressão nos tecidos inflamados aumenta, estimulando os nervos locais. Elevar as pernas costuma trazer alívio imediato.
5. Ferida de trombose é contagiosa?
Não. A úlcera venosa é um problema circulatório individual e não é transmitida por contacto. Contudo, feridas abertas podem ser portas de entrada para bactérias externas.
Referências Bibliográficas
- O’Donnell TF, et al. Management of venous ulcers: Clinical practice guidelines. Journal of Vascular Surgery, 2024.
- Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Guia de Tratamento de Feridas Complexas.
- World Union of Wound Healing Societies (WUWHS). Strategies for the Prevention and Management of Venous Leg Ulcers. 2025 update.